segunda-feira, 9 de abril de 2012

Fim de tade



Toco com as pontas dos dedos, sinto a realidade chapada na minha frente a gritar por mim como uma onda de eco. Sinto o coração acelerado e o toque das tuas mãos em mim. A saudade, ai essa vil e cruel palavra não parece ter significado no calor libertado pelos nossos corpos, pelo sorriso solto dos nossos lábios. 
Traço o contorno do teu lábio superior devagar, sem pressa de o tocar todo, repetirei este gesto mil vezes até ter decorado no meu pensamento esse traço suave que tantas vezes beijei. 
Toco a barba de alguns dias por fazer, raspo com os dedos os pelos ásperos e pontiagudos que me picam a carne que lhe dou. Acelera o meu pulso com o medo do que vem depois. E rimo-nos como se aquilo fosse natural, normal, uma tarde como tantas aquelas que perdemos antigamente. 
Hoje não preciso de mais nada. Só de ti e de nós naquele espaço a sentirmos-nos um ao outro.
O tempo lá fora escurece, será uma nuvem passageira, um cair de tarde normal, ou será o céu a dar-nos a escuridão que precisamos os dois. 
Hoje não existirá tempo para arrependimentos, nem tempo se quer para palavras. Existirá o olhar, o riso e os toques ligeiros, com medo e brincadeira. Escurece e talvez o tempo já fuja pela rua abaixo com pressa de nos ver separar. Os nossos lábios tocam-se.
 E o mundo pára.

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