Capitulo I
A partida
Dei-lhe outra pancada, mas já vi que não ia funcionar mesmo. Não ia aguentar mais 2 horas de viagem até ao norte sem ar condicionada. Malditas camionetas velhas.
Voltei a encostar a cabeça a vidro, o suor escorria-me pela testa, fechei os olhos por um momento para aproveitar um pouco da musica que tinha no walkman. Tinha pedido ao meu pai um discman nos anos mas ela não me tinha oferecido, então agora passava a vida a trocar de cassete de meia em meia hora.
Recordava aquela manha que tinha ido à escola fazer a minha matricula, parecia tudo tão distante agora. Os meus colegas, o Sérgio, tudo. Queria passar estas férias com ele, afinal só namorávamos à cerca de 3 semanas. Mas não, o meu pai tinha de me mandar para o norte com o meu irmão e os meus avós. Será que ele não entendia que aquilo a mim já não me dizia nada?
Tinha sido muito bom, anos antes. Adorava ir para lá, estar lá de férias, adorava ir guardar as vacas e as cabras com a Júlia e com a Paula, tirar o leite. Lá tinha uma liberdade como nunca tive na cidade. Mas o meu pai não percebia que com 14 anos eu queria estar com os meus amigos, ir à praia, estar com o meu namorado, que ele por acaso não sabia ainda.
Mas estava enfiada numa camioneta a 3 horas a caminho do norte com o meu irmão ao meu lado a jogar tétris e com os meus avós atrás a perguntar-me de 15 em 15 minutos se não tinha fome, se não queria bolachas....Que ricas férias iam ser estas já estava mesmo adivinhar.
De repente a cassete acabou, ouvi o estalido do fim, nem tinha reparado que estava na ultima musica tão embrenhada nos meus pensamentos e a pensar no belo beijo que eu e o Sérgio tínhamos trocado de manha antes do meu pai me ir buscar.
O Sérgio era o meu primeiro namorado. Não é normal eu sei, uma rapariga de 14 anos da cidade ainda não ter tido nenhum namorado. Eu sempre fui muito ligada aos rapazes, mas no sentido de andar com eles a jogar à bola ou a fazer macacada, nunca tinha olhado para eles com aqueles olhos de rapariga. Finalmente no ano anterior apaixonei-me pela primeira vez. Assim que o vi foi amor à primeira vista. Pena que com ele não tenha sido assim, ainda demoramos quase 2 anos para começar-mos a namorar, e agora que o tinha finalmente o meu pai separa-me dele. É verdade que que era só um mês. Também que diferença fazia?! Sempre tinha tempo de pensar se queria aprofundar os nossos beijos, afinal ainda só tínhamos dado uns beijinhos a fugir, nada como se vê nos filmes. Talvez quando viesse do norte estivesse pronta para esse beijo que ele tanto queria e que eu tinha algum medo. Afinal era o meu primeiro beijo.
Quando chegamos a uma das paragens do camioneta o motorista mandou algum pessoal que seguia para as aldeias mais pequenas ir para outra camioneta que nos aguardava ali, porque ele ia seguir com aquela para outro lado. Depois de fazer a chamada das terrinhas para que seguia, lá me levantei contrariada e fui tirar as malas. Só me faltava mais esta, trocar ainda de camioneta. Desci da camioneta e fui tirar a minha mala, a do meu irmão que pesava toneladas, aquele devia trazer os bonecos todos dentro da mala de certeza, e a mala da minha avó. Lá nos encaminhamos para a outra camioneta do outro lado que estava já há nossa espera.
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