segunda-feira, 9 de maio de 2011

O reencontro II

Capitulo II




O reencontro II

Contive a respiração, nem queria acreditar, depois de tanto tempo. Lentamente ele virou-se, tão lentamente como se o relógio tivesse parado de andar. Como se cada tic tac do ponteiro dos segundos demora-se horas a ouvir. O meu coração acelerava a cada movimento dele. Fiz o melhor sorriso nos lábios para finalmente lhe puder "saltar" para o colo. 
Mas o movimento dele não foi mais do que um desviar ligeiro, ele continuava quase de costas. Esmoreci o sorriso e pensei chamá-lo. Não seria má ideia. Afinal ele não adivinharia que eu ali estava, de repente ouço algo a mexer-se na lateral. Pelo canto do olho vislumbrei uma forma escura a levantar-se e desviei rapidamente os olhos para aquele movimento. Nessa pequena fracção de segundos o meu efeito surpresa apagou-se "Boa tarde menina, está boa?! Como estão os seus pais"!

Boa a avó dele, sempre simpática e querida a senhora, mas muito faladora. Quando voltei o olhar para o lugar onde estaria ele, já se tinha deslocado para mais perto da avó. Franzi o sobre-olho não era ele. Era o irmão. O chato do irmão dele. Com o seu andar esguio e meio atrapalhado aproximou-se da avó e segurou-lhe o balde preto. Parecia pesado, pensei eu. Sorri para ele, mas ele não me retribui o sorriso, só o olhar. 
Bem se calhar não sabia sorrir, anormal do miúdo. 

Quando era mais novo já o detestava, apesar de ser mais velho que eu dois anos, sempre foi aquele típico menino dos papás. Em quanto eu e o irmão dele o Manuel fomos "criados" entre vacas e cabras, a subir aos pinheiros, tomar banho no ribeiro e a comer amoras até quase rebentar, a tirar leite às vacas, a correr pelo lameiro a fugir do chibo que nos queria marrar. O irmãozinho mais novo o queridinho Zé, menino da cidade, criado entre árvores de betão, habituado a subir a elas por elevador, entre mimos e brinquedos caros.
Ele puxava-me os cabelos, fazia birra porque queria ir connosco guardar as cabras e depois chorava com medo quando uma se aproximava dele. Sempre o vi como uma versão mimada do irmão. 
Se um era a brisa campestre, o por do sol de verão, o canto da popa nas manhas de primavera, o outro era as tempestades de birras, o ladrar dos cães atrás do osso, o fogo que ardia no verão a destruir o nosso mundo.

E ali estava ele, à minha frente, como se nunca se tivesse passado aqueles anos por nós, como se o detesta-se tanto como o tinha detestado um dia. Os seus lábios serrados mostravam esse mesmo sentimento, reciproco. Mas o olhar mostrava surpresa, talvez até uma pontada de alivio. Desviei o olhar dele, para poder cumprimentar a avó dele. Entre perguntas como estava o pai, a mãe o irmão, a avó, o cão, o gato. Lá me falava que a filha tinha-lhe mandado aquele para estar com ela aquele mês. Para ver se ganhava um pouco de juízo. Mas que o seu Manuel, o seu querido Manuel, criado por ela até aos 8 anos de idade esse tinha ficado na cidade a estudar, tinha de ser, estava a tirar a carta disse-me ela. Estava um homem....

Nesse momento as palavras dela moeram o meu coração por dentro, as saudades devoravam-me as palavras que eu queria dizer a ele. E quando olhei para o Zé, senti uma pena dele, pena do que ele estaria a sentir por a avó dizer aquilo dele, e vi um pouco naquele olhar do meu melhor amigo.
Talvez tenham só passado minutos naquele vaivém de emoções, para mim já pareciam dias. Era muitos sentimentos para tão pouco tempo.

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